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domingo, 26 de outubro de 2008

Epifania

Eu vou facilitar as coisas pra você.Vou facilitar pra você leitor preguiçoso, curioso e mesquinho e vai de página em página procurando fragmentos dos outros para compor a sua própria personalidade.
Vou facilitar pra você, que avalia as outras pessoas através de fotos bem tiradas quase sempre photoshopadas.Vou facilitar para todos aqueles uns que buscam a complementação da sua imperfeição numa idealização da perfeição alheia, porque é muito fácil exigir dos outros tudo aquilo que você não consegue fazer; por isso não coloque suas expectativas em mim!
Eu não tenho culpa pelo que você se tornou! O que você fez com todos os conselhos que eu te dei? Os meus conselhos quase sempre eram bons... Mas o ser humano é experimental e deve bater a própria cabeça na parede para acreditar que sangra. Por isso, sangre.

Facilitarei a compreensão desse texto para todos aqueles que nasceram por engano. Nasceram de um instante que o criador se distraiu com algum belo par de pernas (peludas ou não) e acabaram se misturando entre as pessoas de bem.A você, que lê bons poemas por indicação... Você já descobriu um grande poeta? Você já escreveu um poema? E por favor, não me venha com rimas fáceis do tipo: “amor e dor”.

Você já prestou atenção na letra da música que você sabe de cor? Com o passar do tempo você percebe que a vida pode ser muito mais simples... Percebe que o peso do mundo não está todo nas suas costas. Mas as pequenas responsabilidades confiadas a você podem aliviar as costas de outras pessoas.
Eu descobri que não dói e não é vergonha nenhuma ficar de joelhos. Porque a minha frente há somente um altar, e atrás de mim de agora em diante não haverá mais ninguém senão aquele que deve chegar a qualquer momento...

Em plena quarta-feira, em meio à loucura cotidiana da cidade de São Paulo eu me recusei a vestir a minha farda. Removi a minha coleira, e caminhei livre por entre o trânsito das 18h.Percebi que aos poucos eu já não ouvia mais as buzinas, nem sentia o calor, que de fato fazia. Fui transportado para um lugar onde todos já estavam descalços e não havia fumaça. As pessoas pareciam estar em uma grande convenção comemorativa, pois todos estavam realmente felizes e conversando muito empolgados sobre um mesmo assunto.
Aos poucos pude observar que caminhava rumo a um jardim imenso. Repleto de pequenos animais de todas as espécies rolando em meio a flores e folhas bem conservadas e extremamente coloridas. Será que eu havia morrido?

Olhei para o meu lado direito e avistei algumas crianças. Ao chegar mais perto percebi que se tratava de 2 meninos brincando de bonecas. Deduzi então o quão longe de casa eu estava; e sem a menor vontade nem pressa de voltar.
Eu não fazia a mínima idéia de onde haviam saído todas aquelas pessoas, que pareciam tão felizes e harmoniosas entre si, mas de alguma forma eu sabia que as conhecia de algum lugar... Provavelmente são pessoas que deveriam ter passado pela vida em algum momento, mas fatores externos impediram-nos de nos conhecer.
Ao prestar mais atenção em suas feições, fui reconhecendo algumas.
Havia um menino, de possivelmente 1 ou 2 anos de idade no máximo, que chamou minha atenção.
Certa vez no metrô em uma quinta-feira chuvosa próximo ao centro de São Paulo ele estava no colo da mãe que caminhava apressadamente para pegar um lugar no vagão cheio. Me lembro perfeitamente das bochechas do menino, vermelhas pelo calor, balançando muito a medida que a mãe corria rumo ao trem. Era como se ele me pedisse ajuda com olhar, como se o mundo dele estivesse chacoalhando muito. Eles não conseguiram chegar a tempo, e a porta se fechou, e o que mais me chamou a atenção foi que enquanto sua mãe ficou realmente nervosa por não ter conseguido entrar no vagão ele sorriu pra mim aliviado. E eu sorri para ele também.
Lá estava ele, no colo da mesma mulher, porém ela estava serena, calma e sorridente brincando e dançando com ele, já um pouco mais crescido.
Percebi então que reconhecia várias pessoas e elas me conheciam também.
Brinquei de bonecas com os meninos, cumprimentei o menino e sua mãe, joguei boliche com um grupo de senhores que estava por ali, e molhei meus pés em um lago depois de uma longa caminhada.Ainda deitado perto do lago, avistei um garoto muito parecido comigo. Ele tinha o meu biótipo, cabelos mais cumpridos, bem cacheados, era um pouco mais alto e muito sorridente... Ele se aproximou e eu levantei. Antes que ele dissesse qualquer coisa, já me apresentei, imediatamente ele respondeu que sabia quem eu era.Disse que sabia tudo sobre mim, e que estava me esperando.Eu o reconheci de algum lugar; e no instante que eu lembrei seu nome, ele me beijou.
Senti tudo ao mesmo tempo. Com o beijo dele, senti também seu cheiro, senti o cheiro das flores que estavam a nossa, senti a água batendo em nossos pés descalços... Ouvi os ruídos das crianças brincando a nossa volta e muito ao longe um estranho ruído um pouco incômodo.
Eu estava sentindo absolutamente tudo que acontecia a nossa volta. Todos os meus sentidos estavam aguçados. À medida que paramos de nos beijar, nos tocávamos levemente no rosto um do outro. Foi então que ele sussurrou para mim apenas uma pequena frase. Ele disse: “No amor não existe dor” - Eu sorri chorando e olhando para ele.

De repente o tal barulho incômodo começou a ser mais constante e já quase ensurdecedor. Foi então que protegi meus ouvidos com as mãos e avistei ele desaparecer me deixando apenas com uma pequena flor amarela entre os dedos.

Ao perceber o que estava acontecendo tentei ir atrás dele, mas não conseguia enxergá-lo em meio aos carros que agora já buzinavam sem parar e a fumaça cinza que já machucava meus olhos, cheios de lágrimas. Eu estava de volta ao trânsito da cidade de São Paulo às 18h. Já calçando meu allstar favorito e sujo, carregava minha mochila e sentia meu celular vibrando no meu bolso... Ao retirá-lo vi que não havia nenhuma chamada não atendida, nem mensagem de texto nem nada. Mas qual não foi minha surpresa ao perceber que junto com ele, no meu bolso estava a pequena flor amarela que eu havia ganhado.
Eu não havia sonhado, não estava sob o efeito de nenhuma droga, nem muito menos tão pouco havia morrido.Eu estava mais vivo do que nunca, estava renovado, repleto de esperanças e paz.As buzinas já não me incomodavam mais, nem o calor....

Eu vou facilitar
as coisas pra você.
Vou facilitar pra você leitor concentrado e sensível capaz de enxergar a verdade através da minha realidade.Pra você que, assim como eu, repara nas feições das pessoas que passam por você nas ruas, imaginando qual será a história de cada uma delas.Vou facilitar para aqueles que enxergam com os olhos do coração, que pulsa ao enxergar o bem que existe dentro de cada um de nós.
E sorrindo para estranhos na rua, eu me lembrei que na minha epifania, ele havia sussurrado no meu ouvido a rima mais fácil e o clichê mais barato, mas que havia mudado a minha vida pra sempre...

4 comentários:

Juliana disse...

Puxa!!! estou surpresa!!! Não imaginava que vc escreveria algo assim! Muito diferente daqueles seus blogs da época de adolecente... E aquelas crisesinhas existenciais que cada um de nós passamos. Eu tive a experiência viva de ter entrado em contato com algumas das tuas, e... realmente não cogitava que, depois de algum tempo, elas te fariam chegar a um lugar assim. Meu querido Rafa! Talvez um Rafa mais maturo! Escreva mesmo, escreva coisas boas, que ajudem as pessoas a saírem desse mundinho lúdico, que as vezes elas criam. Escreva com sentimento, e as vezes por experiência própria. Seja lá o que for, que vc escrever escreva para entrar dentro das pessoas e fazer com que elas reflitam sobre algo, ou criem algo, ou sejam algo. Esaa foi a unica coisa que eu lí de vc, não sei quanto as outras, mas através dfessa vc já mostrou que tem bons propósitos dentro de sí, e que pode contribuir com o mundo.
Beijos e Parabéns

Mariana disse...

Rafa! Voce nao facilitou as coisas para mim, pelo contrario. Achei que leria um texto seu e comentaria algo do tipo: muito bom, adorei, que legal! De jeito nenhum esses comentarios seriam falsos ou indiferente.. Eu realmente leria com atençao, assim como fiz. Acontece que a minha missao de comentar seu post se tornou mais dificil a partir do segundo parágrafo. Qq elogio que colocar aqui não sera a altura das palavras que voce escreveu, do modo como foram colocadas e do significado delas ... um "adorei" é mentira, um "legal" é vazio e um "muito bom" é pouco ... Nao tenho o que dizer além de Parabéns por ter colocado tanta emoçao e verdade no que acabo de ler, parabéns pela escolha do título! Obrigada por me surpreender sempre..

Bju enorme!
Mari *tuta*

daniele disse...

Amei.Por quê?O seu toque de lirismo, provavelmente...Deveria escrever mais textos com esta linguagem, gosto quando vc faz isso!Parabéns...

Beijos meus...

Gláucia Firmino disse...

Adoro quando você escreve de peito aberto, não importa a emoção.. É paixão.. E é muito gostoso vê-la através do seu doce olhar..Fato é que você é diferentemente especial e deliciosamente adorável.

Beijooo