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terça-feira, 3 de junho de 2008

Príncipes Encantados Não Aparecem num Sábado à Noite



Quem nunca foi ao shopping numa terça-feira morta e entediante procurar o que usar em um encontro no sábado, muitas vezes com alguém que você ainda nem sabe quem é?
O ser humano nutre um desejo secreto e desesperado de encontrar alguém para si.
Alguém para dividir os momentos bons e ruins, alguém para poder comprar e ganhar presentes no "dia dos namorados".
Aquele para sentir um ciúme bobo ou doentio; e alguém que também sinta ciúmes de você.
Que use meias pretas com bermudas e você finge que não repara.... Alguém que esprema os cravos do seu rosto enquanto você finge que não dói só para ficar mais tempo naquela posição; porque a sensação dos dedos dele sobre o seu rosto e a visão com fácil acesso a boca dele é a melhor coisa do mundo!
Alguém para discutir qual filme assistir na fila do cinema, debater sobre ele ao final da sessão e daqui algum tempo, quando vocês já não estiverem mais juntos, lembrar com saudades desse dia quando vir pôsteres do filme espalhados por aí, anunciando seu lançamento em DVD.
Planejar viagens, mudar os planos, fazer depilação, discutir nomes de crianças que provavelmente nunca irão nascer...
Alguém que podemos passar horas beijando, cujas mãos você já conhece e adora o formato. Principalmente quando elas percorrem seu corpo, sem pedir licença - porque a intimidade não pede licença, descobrindo e explorando cada pedacinho, cada ponto tímido, íntimo e fraco.
Alguém com quem transamos de luz acesa.
...
Todo mundo, por mais que não saiba ou não assuma está à espera de algo assim.
Esse amor que a primeira vista pode parecer um pouco piegas e até tradicional demais pode vir em diversos formatos, e com certeza você se identifica com algum deles.
Podem ser duas mãos dadas sempre acompanhando as novidades dos cinemas todas as sextas-feiras ou sessão pipoca em casa aos sábados à noite, com pés de meias se esquentando. Ou ainda dois pares de allstar’s sujos andando de jeans e moletom por lugares inusitados que vocês ingenuamente acharão que só vocês conhecem...

Isso sem falar nas músicas. Todo casal possuiu no mínimo umas duzentas músicas! Conheço pessoas que idealizam uma trilha sonora antes mesmo de encontrar o par romântico e sonham com os beijos esboçados ao som das mais bregas canções.
A cidade é um verdadeiro mar de rosas para quem está apaixonado. Cheia de buracos estratégicos para aquelas aventuras que você adora sorrir timidamente ao lembrar no meio da semana. Na época do famoso “dia dos namorados” tem até promoção de aparelhos de celular para os pombinhos; aquela publicidade cafona do tipo: “Fale mais com seu amor, por menos!”
Porém para as metades espalhadas por aí a cidade se torna um verdadeiro campo minado. Cheia de armadilhas e dispositivos explosivos que se acionados deixam seqüelas que vão de leves a traumatizantes.
Músicas que tocam na hora errada e o despeito a cada outdor apaixonado que somos obrigados a observar. Os anúncios de promoções são os mais irritantes para os corações gelados!
Porque mesmo que você queira aproveitar a facilidade financeira que a maldita ocasião proporciona e ir ao shopping se dar algum presente como prêmio de consolação, você repara naquela atmosfera cheia de corações que paira sobre as pessoas, então você compra algum sorvete novo “super” calórico, que provavelmente faz você se arrepender logo em seguida.
Ao realizar sua compra em sua loja favorita e liberar e endorfina necessária para te anestesiar da sua dor, pelo menos momentaneamente (afinal o efeito do sorvete já está passando) chega o momento que todo solteiro teme nessa época. O momento que a simpática vendedora pergunta:
- Você quer que embrulhe para presente? É pra sua namorada?
Aí você responde:
- Não, obrigado. Eu não tenho namorada.
Como se isso já não fosse constrangedor o suficiente, ela faz uma cara de piedade e solta uma das pérolas: “Daqui a pouco ela aparece.”
Aí sim você quer um buraco para se enfiar, uma passagem secreta diretamente dali para qualquer outro lugar fora daquela energia “love is in the air”.
Primeiro porque na tentativa de remediar a situação a mocinha praticamente te roga uma praga, né?! – “Ela quer que eu encontre uma mulher??? Não muito obrigado!” – Além disso, você pensa que não precisa da piedade de uma vendedora que provavelmente não possui nem o segundo grau, muito menos um namorado.
Você respira aliviado e se dirige para a saída da loja, mas ela vem lhe acompanhar para entregar suas compras e você então percebe que ela tem algo no dedo... Uma ALIANÇA (ou seja, nessa hora sua amarga teoria vai por água abaixo. Agora você tem certeza que além de ter um lindo namorado, ela provavelmente deve fazer pós em direito e trabalha ali só por hobby, e obviamente não precisa da comissão que ganhou à custa do seu coração carente enquanto você fez um significativo rombo na sua conta bancária, completamente justificável pela ocasião emergencial de crise da sua auto-estima, é claro!)
Ao se dar conta de tudo isso você decide que é hora de mudar esse quadro.
Começa desesperadamente a fazer ligações a cobrar para as fiéis amigas e amigos solteiros (que provavelmente você já beijou em algum momento) – só eles poderão te salvar na fatídica noite de sábado daquela semana.
A partir de agora você entra na vibe do “eu estou bem assim”, diz que vai se produzir para você mesmo, não vai sair para conhecer ninguém, somente para curtir com os amigos.
Chega em casa, coloca as 10 mil sacolas sobre a sua cama, toma banho já pensando na melhor roupa para esconder o excesso cometido mais cedo (o sorvete) e se arruma ouvindo aquelas músicas que dão um up na sua auto-estima.
As etapas da sua noite vão passando numa velocidade gostosa e empolgante. O encontro com os amigos, a chegada no barzinho, o primeiro gole, o segundo, o terceiro, o décimo sexto... As músicas parecem estar sendo tocadas em sua homenagem, o mundo gira ao seu redor e você quase acredita nessa sensação de bem estar que você mesmo criou.
Porém em algum momento a máscara cai. Ou melhor você tira, porque ninguém consegue segurar por muito tempo... O DJ Judas toca uma música mais românticazinha e você repara que até os seus amigos estão acompanhados agora. Já passa das 3:00 da manhã e você, entediado, começa a reparar na decoração do lugar, nos nomes dos drinks no cardápio, nos ponteiros do relógio... Pensa se vai comer ou não um Hot Dog ao sair da balada, pensa que mais uma vez não valeu a pena.
Os casais ao seu redor sorriem um para o outro cantando pedaços de músicas no ouvido do parceiro enquanto se abraçam de olhos fechados.
Sua auto-suficiência acaba, e você resolve ir embora.
Porém nesse momento algo muda. Alguém te aborda, perguntando se pode te conhecer.
Você ainda nem se virou, nem sequer viu o rosto do indivíduo, mas já sorri por dentro, porque no fundo todo mundo gosta de ser abordado assim.
Você se vira e conversa um pouco, bem pouco mesmo, só o básico para essa primeira etapa: nome, idade, profissão.
Acontece um beijo roubado com a sua permissão e as mãos meio bêbadas e carentes se acariciam receosas.
Como já é tarde, em algum momento ele vai dizer que precisa ir embora, e mesmo que você tenha curtido o momento, algo te bloqueia e você não quer pedir o telefone dele, porque isso já é um risco muito grande.
Mas então ele impressiona:
- Vamos trocar telefones?
Nossa... Você ficou realmente surpreso, quem sabe todo contexto até aqui terá valido a pena? Será que dessa vez será diferente? Será que ele é diferente? É o cara certo?
Ele vai embora e você decide que está na hora de ir também, afinal você tem que estar em casa quando o telefone tocar.
Se ele ligar você marca um encontro, sente um friozinho na barriga, atrasa um pouquinho, faz um charme e sai para jantar... Mas se ele não ligar, você não sente nada! Nada de novo, isso é comum pra você.
Mas você, ligar, NUNCA! A probabilidade de você se machucar nesse caso é um milhão de vezes maior.
Passa segunda, terça... E nada. Mesmo sabendo que príncipes encantados não aparecem num sábado à noite, você espera. E lá pra sexta-feira, já sem esperanças você pensa que alguém devia inventar uma espécie de Engov pra relacionamentos! Você se previne e toma um antes. Caso as coisas não saiam como o planejado, você toma o segundo eliminando o mal estar da sensação de mais uma vez, ter se iludido.